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Aqueles que passam uma vida ensinando
novos bateristas a aprender a arte dos tambores, acabam sendo brindados
com uma visão panorâmica e madura de tudo que se passa
no mundo das baquetas – sobretudo quando se debruçam
com amor e se dedicam de corpo e alma a essa verdadeira ciência.
Esses conseguem captar até mesmo os fenômenos sociais
que ocorrem no nosso cotidiano. São essas vozes que devemos
escutar – vozes autorizadas porque sacrificaram suas vidas
em prol da arte e são os responsáveis pela sua perpetuação.
São essas vozes que lá do topo da montanha podem nos
dar o caminho das pedras, sem mistério, sem risco, porque
têm uma visão privilegiada – que nós,
daqui de baixo, não enxergamos.
Muito bem. Publiquei um tópico
despretensioso em “Aulas e Estudos” sobre “Resistência
à Técnica” que chamou a atenção
de alguns professores, inclusive do Magoo, que em sua resposta nos
trouxe um outro fenômeno social, tão curioso quanto
o objeto deste pequeno discurso, que faço questão
de transcrever como um preâmbulo ao nosso tema, mas que por
si só já merecia muitas discussões, in verbis:
“Esta sua colocação
foi realmente formidável. Grande parte do pessoal que começa
a se envolver com arte passa por esta situação e não
sabe o porque. Vejo muito isso entre os meus alunos. Outro aspecto
que eu reparei é o que podemos chamar de "síndrome
de festival". Quando rola algum evento tipo Hollywood Rock
ou Rock'n'Rio, o pessoal fica desesperado para "ser" igual
aos "caras do palco". Em outras áreas também
rola isso. Quando lançam um filme tipo Rock IV, as academias
ficam lotadas. Todo mundo aqui do fórum deve ter visto um
caso destes”.
O texto do nosso amigo dispensa comentários.
É completo, claro e objetivo. É um fato curioso que
nunca havia chamado a minha atenção (essa é
uma visão privilegiada – própria daqueles que
observam do topo da montanha), mas tenho certeza, será fonte
inspiradora de reflexão de muito por aqui e, esse é
o objetivo.
Pois bem, vamos ao nosso assunto.
Na minha aula com o Sérgio Conforti na semana passada, ele
comentou a resistência de alguns alunos em aderir à
técnica, a falta de paciência e interesse pelo estudo.
Começamos a conversar e, também pudera, as revistas
exaltam o batera que é autodidata; isso é um mal exemplo.
Claro que o cara que aprende tudo por si só tem um valor
inestimável, mas pra que sofrer? Para que tanto tempo pra
aprender correndo o risco de aprender errado e viciar no erro?
Fiquei pensando nisso...
Normalmente o cara entre os 10 e 20
é que resiste. Por que?
Muitos procuram a batera como um grito
de revolta ao colégio, ao sistema e procuram um refúgio
nas artes, como se fosse um outro mundo, sem compromisso com nada.
Quando precisam de algumas ferramentas para progredir deparam com
a técnica e com a partitura - e criam resistência.
É porque na mesma hora, inconscientemente, o aluno faz o
link com o colégio, com o mundo da escravidão (na
juventude o colégio, na vida adulta o trabalho) e já
tem aquele preconceito. Outros não sabem o que querem. Na
música os pais não têm como controlar o amadurecimento
na arte. Por ser um projeto pessoal os pais também não
levam a sério e não cobram, criando um campo livre
para os garotos ficarem ‘coçando’ ... sem estudar.
Outros ainda, precisam de estímulo. Gostam da batera mas
fazer sacrifício de estudar é demais. Ainda tem aqueles
que buscam na bateria um up-grade para sua própria imagem
- no contexto social em que se encontram. Acham que o fato de serem
bateristas chama a atenção das gatinhas...fica bem
na fita com os amigos...enfim...assumem uma personalidade “pra
frentex”. Se crêem músicos – livres dos
preconceitos, dos dogmas e postulados dessa vida cinzenta do cotidiano
urbano. Nessa onda, ainda tem aqueles infelizes que misturam droga
e música, como uma forma de justificar a fraqueza do espírito
- como se a sede do espírito por um baseado ou uma carreira
de pó buscasse inspiração na música.
Coitada da música! Para todos esses a música é
uma desculpa ou uma fuga. Esses não conseguem se criar na
música – e depois, quando crescem, culpam o mercado,
o Brasil, as gravadoras, os dirigentes da televisão brasileira...
Amigos, têm muitos que não conseguem tocar um tamborim
direito e querem vencer como bateristas – no país do
futebol e da bateria.
Para essas figuras, se não
fosse a música seria outra arte ou outra ciência a
responsável pelo seu insucesso na vida, quando, na verdade,
a culpa é dele próprio.
A música não é diferente dos outros ofícios
e profissões. Estamos todos dentro de um mesmo contexto.
Em qualquer arte ou ofício
temos que ser os melhores para encontrarmos nosso lugar ao sol.
O que tem de comum entre a vida escolar e a técnica da bateria
é que ambas têm que ser levadas a sério. Dispa-se
você – do preconceito. Não confunda os dogmas
da química, da biologia e da álgebra com os da música.
Não têm nada em comum - só a seriedade. Como
em qualquer profissão, para sermos bons temos que dominar
a técnica do ofício que nos propomos.
Pois bem galera, batera é um mundo à parte. Se você gosta leve a sério. Somos um país privilegiado no que diz respeito ao mundo dos tambores e temos que continuar a produzir boas safras. Somos o celeiro da música quebrada, latina. Estude sim. O estímulo vem com o tempo, com o resultado na própria batera. É um estudo diferente. O resultado é prático e a curto prazo. É apaixomante! Dê uma chance à técnica. Você vai se surpreender!!!