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O "paizão de todos nós" ou "o mestre dos mestres" - assim é como melhor traduzimos o que vem a ser essa lenda viva - Dudu Portes - no nosso meio. Se tiver um único homem a quem devemos as honras por essa evolução no mundo dos tambores - é ele - o número 1.

O Dudu não forma opinião, ele "é" a opinião. Qualquer outro mortal será um simples formador de opinião, mas as idéias de Dudu Portes são referenciais em qualquer que seja a área abordada em matéria de bateria. Duas são as causas que tornam esse ícone da bateria brasileira um porto seguro em matéria de opinião: seu conhecimento e sua ética. Das características da madeira adota-se a profundidade do tambor, a espessura do casco, a borda, o aro, a pele - e ninguém melhor que Dudu Portes para dominar esses conceitos. Por outro lado, seu caráter ilibado, reto e coerente, torna a voz de Dudu Portes autorizada a opinar sem tendências - uma opinião respeitada - digna daqueles que pensam grande. Se Dudu diz que é bom, é porque realmente é bom.

Mas tudo isso não se fez da noite para o dia. Foi uma vida intensa dedicada à bateria. Quando senta num banquinho de frente para os tambores, Dudu não "toca" bateria - "filosofa" - porque toca com inteligência e musicalidade. Dudu é um músico completo, tendo navegado pelas águas do Jazz, da Bossa Nova, da MPB, além de ser possuidor de um currículo rockeiro que data dos porões do Rock Brasileiro.  Enfim, Dudu tocou e gravou com nomes lendários durante a sua estrada, além de se dedicar a uma vida acadêmica invejável. Hoje, como conseqüência desse conhecimento e experiência, nossa fonte inspiradora é consultor técnico de diversos fabricantes no Brasil e de representantes de grandes marcas internacionais.

Nós, da equipe do Site Batera, somos os "fãs número 1" do Dudu Portes. Queremos ser como ele quando crescermos. É nele que nos espelhamos quando nos dedicamos à nossa galera do fórum. Tivemos a honra e o privilégio de encontra-lo na Expomusic, onde aproveitamos a oportunidade para expressar tudo isso pessoalmente, e conseguimos agendar essa entrevista, que agora temos a honra de dividir com a galera. Com vocês: DUDU PORTES !!! 

Site Batera: Dudu, você é um baterista eclético. Já trilhou os caminhos do Jazz, da Bossa Nova, da MPB e do Rock. É claro que tudo isso faz parte da construção de um artista, mas sempre temos umas raízes mais profundas com determinados estilos musicais. Afinal, o que você mais gosta de tocar?

Dudu Portes: Fica difícil para mim determinar apenas um estilo de maior preferência. Eu aprendi a gostar da música no seu todo. Não sei se é porque eu aprendi um pouco de instrumento de harmonia ou por ter feito minha verdadeira escola em baile (onde você é obrigado a tocar de tudo um pouco). Gosto do Jazz, do Rock, do Funk, do Samba enfim, gosto de música. Podemos dizer que, o que eu gosto mesmo é de tocar música.

Site Batera: Seu currículo é extenso. Pra quem já tocou e gravou com Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Vinícius e Toquinho, Milton Nascimento, Rita Lee, César Camargo Mariano, Hermeto, dentre outras estrelas da mesma ordem de grandeza, o que você recomenda para aquele que pretende abraçar essa carreira apaixonante que é a arte dos tambores?

Dudu Portes: O exemplo é um tanto maluco, mas sua essência é absolutamente verdadeira: quando pensar em trabalhar com música, pense na bateria como um "TAXI". Se a música indica ou pede um caminho, siga por ele. Se o arranjador pensa em algo leve e com pouca nota, faça o que ele pede pois, com certeza, ele vai precisar desse tipo de condução e, também, para na hora que precisar, ter para onde caminhar. Imagine um arranjo cheio de sutileza na primeira parte, na segunda parte muita nota e no refrão um baita de um FFF. Se o músico já entra "fritando" e "a pleno", na hora de "dobrar" ele não tem para onde ir e quando chegar o refrão, além de não ter mais o que fazer, ele vai estar "cansado" - assim como todos os que estão ouvindo e tocando com ele. Se o cantor pede suavidade em determinado momento, toque suave e pronto. Comparando com o táxi, se o "passageiro" pede para ir para a estação rodoviária, não adianta querer levá-lo para o aeroporto. Nessa de "levar o passageiro apenas de acordo com a nossa vontade ou apenas para onde bem entendermos" podemos até ser "condenados" por tentativa de seqüestro. Hehehehe!

Outra coisa fundamental é estar em dia com o instrumento para não transformar o prazer de tocar tudo em "agonia e sofrimento", meu pai sempre dizia - "O que sobra não falta" - e isso, usado em termos de técnica e destreza no tocar um instrumento é perfeito. Não existe nada melhor para que possamos deixar fluir toda a nossa musicalidade. Ah!... Para completar:  falta de companheirismo, caráter duvidoso e relógio de borracha (chegar atrasado nos compromissos), também não ajudam em nada.

Site Batera: A sua relação com o público é algo que orbita entre a relação de professor e aluno. Por onde você passa você deixa lições. Sua passagem pela Revista Batera marcou por isso: a cada edição eram verdadeiras aulas que os leitores recebiam. Até mesmo no Orkut aprendemos muito com as suas manifestações, que nos proporcionam lições preciosas. Fale um pouquinho pra gente do Dudu "pai de família", do Dudu "cidadão", do Dudu "pessoa", pra gente poder entender de onde vem esse dom que transcende o mundo dos tambores e acaba nos proporcionando verdadeiras lições de vida.

Dudu Portes: Minha vivência como músico nesses quarenta anos de carreira me ensinou muito. Dentre as muitas coisas que aprendi uma das principais foi entender o que é o verdadeiro respeito. Ninguém chega a lugar nenhum por acaso, sempre existe um porque, por exemplo: Hoje em dia muitas pessoas dizem que conheço, praticamente,  tudo de bateria mas, para chegar nesse estágio tive que "ralar" muito, tive que "pensar" muito e, tive que "estragar" muito para finalmente conseguir realizar esse "conhecimento" que todos falam. A convivência com pessoas geniais, com pessoas medíocres, com pessoas mesquinhas, sem caráter ou tudo isso ao mesmo tempo, foi uma outra experiência que também me serviu de munição. Somando isso a oportunidade de ter me desenvolvido numa das fases musicais, na minha opinião, mais ricas e criativas - anos 60, 70 e 80 - e, finalmente, o convívio de uma família maravilhosa me apoiando, não tinha como dar errado. Sabe, o amor pela minha profissão e a seriedade com que aprendi a encarar a música, me permitiram fazer coisas incríveis como conhecer o mundo tocando bateria, formar uma família, criar e formar minhas três lindas filhas, trabalhar com a música em outras áreas (propaganda, cinema e teatro), escrever para revistas brasileiras e estrangeiras especializadas (BATERA, DRUMS MAGAZINE e MODERN DRUMMER), desenvolver produtos de qualidade para as nossas indústrias e, finalmente, manter o luxo de ter uma "embaixada" com um verdadeiro "arsenal em baterias".
  
Site Batera: Já que falamos da Revista Batera, como está a sua relação com a Revista?

Dudu Portes: Como assim? Vocês querem saber se nós brigamos? Não. Está tudo em paz, eles lá e eu cá. Decidi sair por preservar a minha opinião e credibilidade que, como disse acima, consegui com muita luta e com meu próprio suor. Jamais aceitaria fazer matéria "chapa branca" só por que se trata de um anunciante. Nunca elogiei merda e vou continuar assim até o fim. O que é bom eu enalteço, se é ruim eu me calo, essa é minha filosofia de vida. Acho que num veículo de comunicação que pretende formar opiniões, o comercial não pode e, nem tem que interferir no editorial sob o risco de se criar um produto inidôneo e sem a menor credibilidade.

Site Batera: Você enveredou por um caminho de poucos. Hoje você é consultor de várias marcas e se tornou referência em matéria de opinião técnica. Como está a vida profissional do Dudu hoje? E seus projetos para o futuro?

Dudu Portes: A minha vida profissional está bastante voltada para a área do desenvolvimento de produtos e equipamentos profissionais para a música. As peles de bateria LUEN com a minha assinatura estão sendo bem aceitas pelos mais significativos e expressivos músicos do Brasil e do Exterior. As caixas eletroacústicas desenvolvidas para a STAFF DRUM já são uma feliz realidade; minhas baquetas, Signature, distribuídas pela MICHAEL, são as preferidas pelos profissionais enfim, estamos bem na fita. Quanto ao meu futuro... está todo nas mãos de Deus. Quero tocar o meu projeto de músico - estou me preparando para voltar definitivamente a tocar, tenho um estúdio para terminar, um site para concluir e "botar pra rodar", seguir com os meus seminários sobre profissionalismo na música enfim, estamos aí na luta e sem dar espaço para o desânimo e os maus pensamentos.

Site Batera: Já que falamos de projetos futuros e já que estamos conversando com uma cabeça que pensa grande, ninguém mais autorizado que você para traçar um paralelo entre o mercado brasileiro e o mercado fora do Brasil. O que você recomenda: Brasil ou exterior? Vale a pena estudar lá fora? Vale a pena encarar profissionalmente os palcos da Europa ou dos EUA ou é melhor encarar a vida aqui mesmo?

Dudu Portes: Quero deixar bem claro uma coisa, antes de mais nada, é preciso saber o que estamos pretendendo com a música. Se acreditamos na profissão, se vai haver um verdadeiro empenho. Não devemos nos esquecer nunca que o caminho da música é um sacerdócio. Se tivermos isso em mente, já temos um bom caminho andado. Quanto aos estudos, é lógico que lá fora você tem mais recursos mas, apenas o estudo lá fora não vai fazer de você um músico de verdade - a técnica e o estudo é deles mas a essência e a musicalidade tem que ser de cada um. Me perdoem os dólares gastos, mas tem muita gente que foi estudar lá fora e, ao voltar, não soube apresentar ou mesmo não acrescentou algo para o cenário musical. O fato de estudar no exterior não vai fazer ninguém virar músico de uma hora para outra. No que se refere ao profissionalismo, aí sim, lá fora é melhor. Lá eles pagam direito autoral, pagam ensaio, pagam gravação, pagam execução em rádio, tv, cinema ou qualquer outro meio de divulgação, pagam direito de uso de um fonograma em peça comercial enfim, encaram a música de maneira profissional. Aliás, a música está entre os principais geradores de divisas nos EUA. Quanto ao nosso Brasil, enquanto o músico não tiver consciência da sua profissão, nada de melhor teremos pela frente. Querem um exemplo rápido?

A - Ao gravar com um artista, para receber um mísero cachet, o músico é obrigado a ceder todos os seus direitos, que por lei são intransferíveis e inalienáveis, para a gravadora.

B - Ao se apresentar na TV acompanhando aquele mesmo artista com quem ele gravou, ele é obrigado a tocar de graça - para promover um disco que ele já não tem mais direitos sobre a venda nem sobre a execução (lembram que ele assinou?) - e ainda por cima, tem que tirar do seu instrumento alguma marca que por ventura o esteja apoiando porque essa tal marca não paga a TV para aparecer. Isso sem falar que a emissora de tv já "tomou" uma grana do patrocinador, recebeu o "jabá" da gravadora e o artista que vai ganhar com a vendagem do disco está ali em caráter "promocional", quer dizer, grátis.

Este exemplo é apenas o mais comum deles, existem muitos outros vindos do ranso dos produtores das duplas sertanejas, dos grupos de pagode, dos bares, dos hotéis, das gravadoras, de artistas (?) renomados enfim, enquanto o músico não se posicionar e agir com profissionalismo, a música vai continuar a ser essa coisa menor e instável que apavora a todos os "pais de família". Daí vem aquela famosa pergunta de futuro sogro:

_ O que voc ê faz?
_ Sou músico.
_ E profiss ão, você não tem?
_ Sim, sou músico.
_ N ão... não é isso o que estou falando, acho que você não me entendeu, eu quero saber no que você trabalha?!

E você, músico, para não passar por isso, ou por incapacidade ou por falta de consciência profissional, acaba "dando umas aulinhas", dizendo que é "professor" e fugindo da verdadeira profissão de músico. Que fique bem claro, não tenho nada contra o professor. O que eu quero é que o músico toque mais, que ele se expresse na sua forma mais sublime que é através do seu próprio talento. Quer dar aulas? Tudo bem mas... não deixe de tocar.

Site Batera: Dudu Portes tem seu trabalho reconhecido - para muitos isso é suficiente para uma realização plena. E você, algum sonho não realizado? Algum recado pra nossa galera de amantes dos tambores?

Dudu Portes: Se eu tenho algum sonho não realizado? Puxa vida! Para mim, todos os sonhos do mundo ainda estão por realizar. Tem meu disco, meu grupo, meu estúdio, meu sítio, minha criação de cachorros, minha viagem de moto pela Europa, meus netos... e por aí vai. O homem que não sonha não vive. Tudo o que consigo fazer e aprender hoje, não passa de uma pequena amostra do que posso conseguir amanhã. Essa é a força que me impulsiona para estar cada dia mais vivo.
Agora, quanto a "galera de amantes dos tambores", o mínimo que posso fazer é pedir que tenham consciência profissional em todos os sentidos. No mais é... VAMUTOCÁMOÇADA!!!!!!!!!