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Versatilidade – se tivermos que traduzir Fabiano Rocha numa única palavra – será essa. O cara toca de tudo – daqueles sons mais eletrônicos à bossa nova. Fabiano é um batera virtuoso, e a virtuosidade hoje em dia passa pelo dom, pela capacidade técnica e pela capacidade de atualização no que concerne aos recursos que o mercado disponibiliza – sejam os aparatos tecnológicos, sejam as características dos tambores que se reciclam e se reinventam a cada dia.

Sabe aquela sensação que você sente quando sai de um show do Dream Theater ou do Roupa Nova? Aquela sensação de impotência? De que a gente nunca vai tocar tanto ou com tanta perfeição? É um sentimento dúbio: de um lado a satisfação por ter assistido um trabalho impecável – uma verdadeira homenagem à arte da música – e de outro lado uma frustração própria dos mortais - de que nós nunca vamos tocar assim. Pois bem, é assim que saímos de um show do Fabiano Rocha – toque ele com a sua banda Radio Hits ou com qualquer outra banda ou cantor de carreira solo.

Site Batera teve o privilégio de poder entrevistar esse monstro dos tambores. Discípulo do lendário Bituca, Fabiano segue à risca os passos de seu mestre – sendo hoje, batera “Global” – podendo tocar com nomes de peso como Leonardo, a "Musa" do Forró Rayssa Lemos, KLB, Ivete Sangalo, dentre outros. Uma experiência deste naipe não se revela numa única entrevista, mas infelizmente não podemos fazer mais do que isso. Gostaríamos muito de poder disponibilizar uma aula desse notável baterista para cada um de vocês, freqüentadores do nosso Site – mais que isso – gostaríamos de poder organizar um workshop com Fabiano Rocha. Entretanto, nossa realidade não nos permite tamanha audácia. Assim, meus amigos, o máximo que podemos fazer, pelo menos no momento, é perpetuar suas linhas, que irão estampar as nossas páginas por um longo período – à disposição de vocês. Leiam e releiam.

Com vocês: Fabiano Rocha !!!

Site Batera: Fabiano, muitas coisas me chamaram a atenção, tanto em você, quanto na sua batera, mas uma delas ressalta aos olhos até do mais leigo dos leigos – você toca e canta ao mesmo tempo – são poucos. Você ta fazendo fila com Phill Collins, Serginho Herval e outra meia dúzia de três ou quatro. Como você fez pra ter tanta independência? Você fez aula de canto?

Fabiano Rocha: Olá Maggiolo, olá amigos do Site Batera. Em primeiro lugar gostaria de agradecer a oportunidade e parabenizá-los por esse grande trabalho que é desenvolvido no site. Nós bateristas agradecemos! Vamos lá.... A questão de tocar e cantar realmente não é tão simples assim. No meu caso surgiu desde cedo mesmo. Aos 14 anos (época que comecei a ter os primeiros contatos com o instrumento) já podia reparar que tinha uma facilidade muito grande de tocar e cantar acompanhando meus LP’s na época. Obviamente isso era ainda uma coisa muito embrionária mas posteriormente resolvi apostar nisso pra valer! Iniciei meus estudos de Teoria musical e uma das matérias que escolhi foi técnicas de canto e vocalização. Foi um Período muito fértil para mim. Aprendi coisas muitíssimo úteis que até hoje faço uso para “conseguir” cantar tocando bateria. A independência de fato eu nunca a explorei academicamente, até mesmo porque desconheço qualquer método de estudo voltado para o baterista que pretende também ser cantor. O que faço quando tenho a missão de cantar algo no show é dar uma estudada prévia na música em questão e se tiver alguma parte mais complicada de bateria com canto não tem jeito, tenho que dar uma “malhada” mesmo!

Site Batera: Você é batera da Globo. Antes de tocar no Caldeirão do Huck você tocou no Programa do Faustão. Como é ser um baterista da Globo? Dá muita bagagem? A Globo é muito exigente? A versatilidade tem que ao extremo ou não? E a questão das marcas, a Globo deixa divulgar quando o batera é endorsee ou não?

Fabiano Rocha: Já faço trabalhos na casa há muitos anos. Já fiz parte de novela, caso especial, humorístico, Show da virada, enfim....Realmente a Globo é um desafio novo a cada dia pois é uma pluralidade de estilos, artistas, situações que se não me tiram o sono pelo menos me deixam alerta, bastante concentrado. Fazer um programa de Televisão, em muitos casos ao vivo como era e é o Faustão é bem gostoso. Não tem Script na maioria das vezes. Eu sempre no mínimo gostei de saber que artista iria participar do programa para pelo menos dar uma olhada nas musicas mais conhecidas dele e não ficar totalmente perdido na hora. Mas surpresas no Faustão sempre aconteciam e a gente tinha que rebolar. Muitas vezes ele pedia músicas que o próprio artista já nem lembrava mais. Aí não tinha jeito. O faro do baile tinha e tem que falar mais alto! Atualmente sou fixo da banda do Caldeirão do Huck. Ficamos lá a disposição de qualquer situação que precise da banda. O quadro Cantando 7 é hoje onde efetivamente desempenhamos mais nossa função lá. É um quadro relativamente fácil de fazer. São musicas conhecidas, sem mistério para ninguém, exceto pelo fato da musica ter que parar nos lugares mais loucos. Tenho que ficar muito atento para não seguir na música, e olha que dá vontade!! O bom é que nesse quadro sempre tem a participação de algum artista onde a banda o acompanha. Temos ouvido bastante elogios por parte deles. Isso me traz particularmente uma satisfação pessoal muito grande. Quanto aos endorsements, a TV é uma ferramenta de peso. Qual marca não gostaria de ver sua “logo” ali aparecendo num Faustão, Caldeirão do Huck?! Acontece que nem sempre é fácil conseguir por exemplo colocar um adesivo do seu patrocinador no Bumbo da bateria. Cada programa tem uma política quanto aos merchandisings. No Faustão nunca tive problemas com isso. Podia sem problemas exibir as marcas que me apoiavam (Orion, Made in Brazil, Power Click, Phedra). No Caldeirão do Huck a coisa é bem diferente. Na maioria das vezes as  logomarcas de qualquer instrumento são sempre cobertas por fitas adesivas. O que ainda dá para explorar, e não tem jeito, são os pratos. Imagina cobrir com fita adesiva a marca dos pratos?! Não dá né?!

Site Batera: Por falar em Globo, você foi aluno do Bituca, se eu não me engano. Como foi ser aluno dessa lenda da bateria? Com quem mais você estudou?

Fabiano Rocha: Poxa, Bituca deixou saudades. Grande mestre, amigo. Uma Didática e paciência impressionantes. Boas recordações. Ensinou e formou muita gente boa que está aí no mercado. Estudei com ele na Escola de música Villa Lobos juntamente com Eliseu (Tímpano), Davi (Xilofone) e Guilherme Gonçalves (Técnica e Leitura). De alguns anos pra cá tenho visto muitas vídeo aulas e é onde eu ainda dou uma estudada, aprendo novas levadas, licks... Tenho várias delas e gosto muito de dar essa espionada.

Site Batera: E no exterior, onde você tocou? Muda muito o público? Onde você prefere tocar, aqui no Brasil ou lá fora? E a vida do músico no exterior, você recomenda?

Fabiano Rocha: Já fiz shows na Europa e por vários anos consecutivos no Canadá. O público é totalmente diferente daqui. São bem mais contidos. Musico brasileiro lá fora ainda é muito respeitado. Viver de música fora do Brasil sem dúvida alguma é bem viável. No Brasil realmente cada vez mais é mais difícil. Tocar fora, viajar,  é um prazer mas também estar perto de casa não é nada mal.

Site Batera: A banda Radio Hits toca esses sucessos internacionais do pop ao eletrônico. Como você faz para tocar com esses efeitos mirabolantes que essas músicas exigem. Reparei que você usa um computador no seu set. Pra que?

Fabiano Rocha: É.... Realmente é uma parafernália. A música cada vez mais caminha para o Eletrônico. Uma Banda cover que se preze não pode deixar de fora as tendências atuais e sendo assim não tenho como fugir disso. Basicamente uso um Laptop onde disparo sequências pré-gravadas (Não, não é Playback!rsrsr). São loops, partes de teclado, efeitos.... É tudo aquilo que não tem como executar “na mão”. Por isso vem pré-gravado. Nos shows maiores meu Set de bateria ainda ganha um set eletrônico da Roland com SPD-11 mais pads e bumbo eletrônico. Basicamente é para tocar as músicas mais eletrônicas mesmo. Esse Set eletrônico é acoplado via MIDI a um segundo laptop onde posso me dar ao luxo de muita das vezes usar o timbre original sampleado da música. Quando não, chego a timbres bem próximos. A tecnologia faz parte da minha vida. Fui um dos primeiros bateristas a usar esses recursos de sequencer, laptop aqui no Rio. Desde 1993 eu já colocava na estrada computador em cima do palco. De lá pra cá muita coisa mudou mas dentro do Possível procuro sempre me atualizar.

Site Batera: Você usa click? Você recomenda aos que estão começando se acostumarem com click, ou não?

Fabiano Rocha: Hoje em dia o click está em praticamente em quase todos os trabalhos. Nunca tive problemas. Afinal são mais de 10 anos fazendo isso. Toco e canto ouvindo click. Pra mim é quase como se fosse um instrumento tocando junto. Nem me preocupo. Mas é importante frisar que isso requer prática. Estude sempre com o metrônomo pois quando colocarem um fone no seu ouvido com um “pim,pim,pim,pim” você já estará familiarizado.

Site Batera: Só fui perceber que você estava usando um set de pratos Orion no final do seu show, quando me aproximei do palco. Pareciam pratos Zildjian ou Paiste da melhor linha existente. Tenho dois sets de pratos da Orion aqui comigo que não cantam assim. Não que sejam ruins – são razoáveis, mas os seus são excelentes. Por que tanta diferença?

Fabiano Rocha: Hehehe. Realmente meu Set de pratos da Orion é bem interessante. Pelo fato de ter sido endorser da Orion tive a oportunidade de em algumas ocasiões visitar a fábrica e escolher pessoalmente a dedo todos os pratos do meu uso. Isso fez com que eu ficasse com Sets bem harmoniosos e coloridos. Meu Set atual é: HiHat 14” Série Viziuss, HiHat 12” Série Revolution, Crashs 16”,17”,19” série Bacalhau, Balance Ride 21” série Unique, China 18” Série Rage Bass e Splash 8” Série Revolution. A indústria musical brasileira está bem desenvolvida. Usei os pratos Orion em vários discos que gravei e nunca tive nenhum tipo de reclamação. Como meu roadie costuma dizer: “ Poxa, quando eu monto a bateria e toco eu acho seus pratos uma porcaria, mas quando você senta e toca eles soam maravilhosos!!!”. Modéstia a parte acho que é mão mesmo! É meu toque pessoal! Hehehe

Site Batera: Você lê? É importante a leitura musical para aquele que pensa em ser profissional no Brasil?

Fabiano Rocha: Leio sim. Não tanto quanto eu gostaria. Mas leitura é prática. Quanto mais se lê mais ágil se fica. Considero muito importante o baterista ter esse conhecimento. Partitura específica de bateria é muito difícil de se deparar numa gravação, num ensaio, mas uma partitura com Cifras e com as convenções escritas facilita muito se o baterista ler.

Site Batera: Fiquei impressionado com o som dos seus tambores. Fale pra gente um pouquinho do seu set. Como você faz para afinar tão bem? Reparei que a batera foi montada e você saiu tocando. Você usa a mesma afinação em todos os lugares que você toca?

Fabiano Rocha: Basicamente uso a mesma afinação em qualquer lugar. A bateria com aros Die Cast (Uso uma TAMA Superstar Custom) facilita muito pois ela quase não muda a afinação mesmo com mudanças de temperatura, translados, etc... Só mudo afinação para gravar ou dependendo do estilo do artista que esteja acompanhando.

Site Batera: Por fim, quais os conselhos que você dá para aquele baterista que está pensando em se profissionalizar. Vale a pena ser baterista? 

Fabiano Rocha: Estudar, tocar o máximo de tempo que puder, enfim, se dedicar! O caminho é muito árduo. É difícil conseguir um lugar ao sol, por isso não se deve medir esforços. Quanto mais se pratica melhor você fica. Escute muita música, veja vídeos, pesquise. Hoje com a Internet ta tudo mais fácil e não tem desculpa hein!! Se vale a pena ser baterista?! Claro que sim! Ainda que seja difícil a vida de baterista, vale muito a pena ser reconhecido, exercer seu ofício e ainda ganhar dinheiro com isso. Mestre Bituca falava: “Você não escolheu a bateria... Ela te escolheu!!!” É isso pessoal! Obrigado por esse espaço e até breve!