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Algumas coisas passam pela nossa vida e nem percebemos - outras marcam tanto, que as cicatrizes nos acompanham enquanto vivemos. Com a bateria passamos o mesmo: às vezes um show que você assista é suficiente para transformar o seu jeito de tocar. Sempre temos um marco na nossa jornada musical. Eu fui aluno do Robertinho Silva.

Tive sorte. Robertinho estava naquela fase de construção - quando o baterista investe nos estudos para se desenvolver musicalmente. Fui aluno de Robertinho há mais de vinte anos, quando ele ainda morava no Jardim Oceânico, na Barra - e naquela época Robertinho era neurótico com os estudos. Para se ter idéia, para onde que ele fosse levava consigo um par de baquetas de ferro, pesadas, para exercitar...é mole..!!??!!

Certa feita Robertinho me convidou para assistir um ensaio dele com o Milton Nascimento. Era numa casa, também na Barra da Tijuca, perto do bar do Oswaldo (que tem a melhor batida de coco do mundo). Foi o primeiro grande ensaio que eu assisti na vida. Nunca vou esquecer a seriedade e o profissionalismo do Milton - foi uma aula. Também nunca vou esquecer a cena do Robertinho tocando e me ensinando ao mesmo tempo - esse é "o mestre" - um gênio dos tambores. Com vocês, Robertinho Silva.

Site Batera: Você é uma pessoa que tem trabalho em qualquer parte do planeta. Por que Brasil? Por que viver no Rio de Janeiro? Você acha que aqui tem mais trabalho? O Rio de Janeiro ainda é um celeiro da música brasileira?

Robertinho Silva: O Rio de Janeiro ainda é uma grande fonte de idéias e inspirações, apesar da nossa triste realidade. O estrangeiro chega no Rio pensando que vai encontrar aquele "Rio de antigamente", como a grande terra da bossa nova, do samba e da MPB, com uma vida noturna de shows e tudo mais - e se decepciona nesse sentido. Nos anos 80 tínhamos clubes de jazz espalhados pelo Rio - hoje acabou tudo isso. No Parque da Catacumba já não tem mais show e até o "Garota de Ipanema" parou com a música. O artista tem a sua parcela de culpa nisso: quando se começa a exigir um carro reservado, segurança na porta e tudo mais, inviabiliza o evento numa casa como o Garota, por exemplo. O Circo Voador está aí, mas é voltado para a música pop. Por outro lado, tive que sair daqui do Rio para ir tocar na Ilha da Conceição, em Florianópolis, num bar maior do que o Mistura Fina - dois andares lotados de gente - e pensei: o povo de Florianópolis deve pensar que no Rio é assim, mas não é. Apesar dos pesares - por que morar no Rio? Ora, o Rio de janeiro é uma vitrine. O povo vem do Brasil inteiro pra se revelar aqui no Rio - e isso não tem jeito - não vai mudar nunca. Nós somos criativos e temos o privilégio de viver numa cidade bonita, que inspira a alma de qualquer artista - seja o nascer do sol, o fim da tarde, o calor do verão ou tempo delicioso das outras estações, as praias, as montanhas, o visual da cidade, o jeitão do povo carioca, tudo é fonte de inspiração e o artista vem atrás disso. Aqui ele cria e a mídia faz acontecer. O que acontece musicalmente no Rio, reverbera nos outros Estados e ecoa nos outros países. Eu morei quatro anos nos Estados Unidos e voltei para o Brasil. Nos Estados Unidos você pode morar na Filadélfia que um empresário vai te buscar e te faz tocar em Los Angeles - isso é normal. Aqui no Brasil isso ainda não acontece assim. Comecei no exterior com Egberto e depois Hermeto, mas o Brasil é a nossa terra, a nossa raiz - e todos voltamos. Eu sou reconhecido em muitos países, poderia viver em qualquer um deles, mas Brasil é Brasil.

Site Batera: No que concerne aos estudos, você acredita que o exterior ainda é a única opção para aquele baterista que está começando a carreira?

Robertinho Silva: Acho que o exterior não é mais uma opção singular. No Brasil já se pode estudar muito bem. Já temos um bom acervo de escolas, professores e métodos por aqui. É importante o baterista estudar fora para ver de perto esse mercado por lá. Devemos ressaltar que tem uma certa ilusão nessa história, então é bom que o músico veja como funcionam as coisas por lá. Por outro lado, aqui acontece um fenômeno com a classe média. Quando o filho diz ao pai que quer ser músico o pai sempre reclama: "Ora, eu gastei todo esse dinheirão com seus estudos para você ser um médico, um engenheiro ou um advogado. Se você quer ser músico então vou te mandar para o exterior, para levar à sério e vencer na música". Esse rapaz tem que tomar cuidado para não perder a sua identidade, a sua raiz. Nós temos uma diversidade de ritmos enorme. O brasileiro tem obrigação de tocar percussão porque nós temos a maior variedades de ritmos do mundo - nem a África tem tantos ritmos. O músico pode ter o estilo que quiser, mas tem que estar com os pés no Brasil - ele tem que beber na fonte.

Site Batera: A teoria musical é fundamental para o baterista profissional? E para o amador? A questão do autodidata - você acredita só no dom e no talento para vencer como um baterista profissional ou seria necessário aprender a "boa técnica"?

Robertinho Silva: Há cinquenta anos atrás já diziam que samba não se aprende na escola. Doce engano - se aprende sim. É que naquela época nós não tínhamos acesso à doutrina. Eu, por exemplo, tinha que sair de Realengo para estudar no Méier, com um professor que tocava na Orquestra Sinfônica. Nem era a minha praia, eu tinha que ter um professor que tocasse ritmos mais modernos, mas eu não tinha acesso - não existia. Hoje é diferente - é mais fácil o acesso. Tem que ter teoria sim, caso contrário o barco não anda. Eu me lembro de uma vez, há muito tempo, que chegou uma pessoa para o Paulo Braga (quando ele já tocava com a Elis Regina - já com aquela técnica toda) e disse: "Eu nunca aprendi teoria" - e o Paulo respondeu: "Nota-se que você nunca estudou". O meu filho Tiago me disse que o Dennis Chambers não lê. Eu respondi que tudo bem, mas essa não é a nossa realidade, um dia o meu filho iria querer lecionar e não iria poder, porque lhe faltaria a técnica. Essa falta de técnica limita musicalmente e profissionalmente - pois se perdem oportunidades. Bateria exige muita disciplina. Mesmo aquele batera cheio de nome, quando fica pelo estúdio pra lá e pra cá com o telefone celular, na hora de tocar faz feio, porque não conheceu a partitura antes. Tem uma passagem na minha vida que demonstra como a leitura é importante. Eu gravei cinco CDs com o Egberto. No quinto, o Egberto me chamou na casa dele. Eu entrei e ele disse "senta aí", "ouve isso", e ligou o som. Já tava tudo ali. Eu ouvi, ouvi e ouvi. Quando ele me perguntou: "E aí, já dá pra gravar?". Eu respondi: "É o seguinte - músico erudito ou musico de sinfônica quando vão gravar uma peça levam a partitura pra casa para estudar. Eu também quero levar a partitura pra casa" - ele concordou. Egberto já estava acostumado com o sucesso dos quatro CDs anteriores mas não podíamos deixar de ser exigentes - justamente pelo sucesso anterior deveríamos manter a forma. Ele me deu uma cópia da partitura e duas fitas cassetes gravadas. Levei o material para casa. Deitei na cama e estudei toda a partitura. Depois escutei a fita e só depois sentei no instrumento. Dias depois liguei para o Egberto: "estou pronto". É por isso que eu digo: leitura é fundamental. Até harmonia é importante para o baterista. Quando eu sento na batera eu quero o baixo no meu ouvido.

Site Batera: E a Família Silva - qual é o segredo desse clã tão talentoso?

Robertinho Silva: Pra começar eu mesmo não sabia que eu tinha uma fábrica de bateristas. Eu não aconselho a ninguém que seja baterista ter quatro filhos bateristas também - nunca. Sabe por que? Porque perde tudo. Perde prato, pedal, caixa etc. O meu filho mais velho queria ser tudo, menos músico. O segundo filho, ao contrário, com nove anos de idade já era campeão em bloco de carnaval - tocando percussão - aprendeu na rua. O Ronaldo, um dia passou num concurso para um banco. Eu chamei o garoto e disse: "banco? Você não quer ser baterista não?" e ele perguntou: "e dá tempo?". "Claro que dá", disse eu, "tem método aqui, partitura ali e bateria ali no outro lado, vamos começar agora mesmo. Aqui tem o telefone do Afonso, um professor de teoria lá de Bangu com quem eu toquei no início da minha carreira. Vai estudar com ele que é um ótimo professor". Depois, como aquele ditado "em casa de ferreiro o espeto é de pau", ele foi estudar com Pascoal Meirelles. O Pablo não tinha como não ser baterista: filho de batera e criado por batera - dois pais bateristas. Já o Tiago, com seis anos de idade subia no palco comigo e tocávamos juntos no show do Milton Nascimento. Enfim, para encurtar a história, quando os meus filhos tocaram no Circo Voador - me chamaram para ir mas eu não tomei conhecimento. Quando eles foram tocar no Planetário da Gávea me despertou a curiosidade e fui assistir. Foi demais - resolvemos montar a nossa banda "Robertinho e Família". Não sei qual é o segredo do clã. O Vanderlei e o Tiago chutam a lata com os estudos, mas são muito criativos. O Ronaldo e o Pablo são muito estudiosos. Em casa eu tento corrigir esse defeito do percussionista brasileiro, que por ser muito talentoso fica preguiçoso - não gosta de estudar. A maioria dos bateristas brasileiros começam a ganhar dinheiro e deixam a teoria de lado. Aqui não vai ser assim.

Site Batera: Seus trabalhos atuais - conte pra gente quais são as suas frentes de trabalho: aulas, workshops, shows e gravações.

Robertinho Silva: Eu me dedico mais à música instrumental mesmo. A grande oficina eu fiz em janeiro, em Curitiba - já é o terceiro ano que eu participo. Participei do NiteroiMusiFest. Estou indo para a Europa acompanhar João Donato e Vanda Sá, tocando aquilo que eu gosto: bossa nova. No Festival de Inverno (Teresópolis, Petrópolis e Friburgo), que eu sempre fiz oficina de bateria e percussão - neste ano eu não vou fazer - pois vou me apresentar com o grupo chamado "Barbatuques" (dias 23 e 24 de julho) - um grupo que batuca no próprio corpo. Em setembro tem o Festival de Jazz de Ouro Preto - eu vou fazer oficina. E por aí vai. Nunca irei aposentar as baquetas - vou até o fim com elas. Já tenho os kits preparados para quando o corpo ficar mais lento. Tem gente que fala da garotada nova com certo desprezo. Não sei porque - pois são eles que trazem as tendências. Hoje aprendo muito com os meus filhos. Não corro mais os noventa minutos e o jovem corre. Além disso, eles são muito bem informados, trazem as novidades em tempo real. Por que não aprender com eles? Assim, vou até o fim sem aposentar as baquetas. Estou preparando um método que vai dar o que falar. Aguardem.