Na profissão de músico, seja em uma banda mundialmente famosa ou tocando na sua cena local, você sempre se depara, ou irá se deparar com a passagem de som (sound check em inglês), antes de um show. Com exceção de vários artistas famosos que não fazem seus sound-checks, confiando esta missão a roadies ou técnicos de palco altamente preparados, nós mortais, devemos ir lá, montar nossas coisas e passar som!

Normalmente chegando ao local eu sempre procuro dar uma olhada no estabelecimento, conferir a disposição do palco, tipo de piso (isto influi se vou precisar descarregar um tapete, coisa que, aliás, não gosto muito), colocação da bateria conforme o espaço disponível e se será possível para meu roadie transitar com o equipamento no meio das pessoas ao fim do show. Checado estes itens, sempre procuro estacionar o carro em local de fácil acesso para descarregar e carregar novamente.

Muitas vezes as casas já têm baterias prontas para serem usadas, ou o palco vai ser dividido por duas ou mais bandas e a bateria tem que ser uma só. Porém confesso que procuro usar sempre a minha, a não ser em condições inviáveis. Para alguns é preciosismo, para outros, puro profissionalismo, mas eu acredito piamente que usando nosso instrumento, sempre vamos nos sentir mais em casa, mais à vontade com som, disposição etc. Procure chegar antes do pessoal da banda, o suficiente para montar suas coisas, seja a bateria toda ou apenas partes dela. Monte e ajuste a bateria, avise ao técnico de som que ele pode colocar os microfones necessários e aguarde o trabalho dele. Uma vez ajustados os mics, evite reajustar alturas e distâncias entre as peças, pois isto afeta na captação, mesmo em situações a vivo.

Hoje em dia o retorno pode ser enviado a você via monitor in-ear ou por side (caixas que podem variar de tamanho e potência). Em ambos os casos esteja preparado, leve sempre o seu fone e se tiver, o seu sistema de amplificação de sinal, pois você pode não gostar da qualidade do retorno via side. Uma vez que o técnico de som requisitar que comece a passar o som, seja qual for a peça que ele requisite, toque de forma lenta, poucos toques, espaçados, porém firmes, com a mesma pegada que você vai usar no show. Por exemplo, com o bumbo, use a forma que você costuma tocar, seja calcanhar levantado ou abaixado, mas toque de forma firme. Com a caixa, execute toques espaçados, sem ficar fazendo um estudo de rudimentos, rufos, doubles etc. Toque com rimshot se você assim for fazer no show em si. Se você gosta de uma afinação mais alta ou mais baixa, com ou sem abafamento, deixe tudo pronto antes de passar, deixando apenas pequenos ajustes para a hora da passagem.

Com os toms e surdo, a mesma coisa. Nada de querer fazer a introdução de Enter Sadman do Metallica ou as viradas de Tom Sawyer do Rush. Vá com calma! Passe cada tambor de forma consciente, sempre requisitando ajustes ao técnico caso você ache necessário ou não esteja ouvindo em seu retorno. Não tenha medo de pedir retorno! O técnico está lá para ajudar você! Com o chimbal, vale o mesmo: toques simples, espaçados, como se marcasse o tempo em 80 bpm. Experimente o som abrindo e fechando, meio aberto e se quiser com alguns toques duplos, mas após finalizar a timbragem. No ride a situação é semelhante: teste corpo e cúpula e execute ataques nos crashes, splashes e china.

Se usar algum equipamento eletrônico como bateria eletrônica, sampler ou sequencer, tenha a certeza de que está ouvindo tudo muito bem. Não abra mão disto, pois pode prejudicar seu som e o show da banda.

Normalmente o técnico pede para o baterista fazer “uma geral”, ou seja, tocar algum groove com algumas viradas. Eu gosto usar um groove de andamento médio, com toques de bumbos simples, viradas “quadradas” em colcheias mesmo, com acentos firmes nos pratos, assim o técnico poderá mixar melhor cada peça no groove geral. O momento “Hei, olhem para mim, olhem o que sei fazer”, deixo para os 30 segundos finais da passagem, afinal se ir passar o som já é “chato” prá caramba para muitos músicos, imagina com solo de bateria! Guarde seus truques para a hora certa do show!

Após passar seu som e retorno, se puder, peça a alguém para que toque sua bateria para você ouvir como está saindo no PA. Assim você poderá corrigir junto ao técnico os detalhes finais que achar relevantes. Estamos considerando, que haverá ao menos um microfone para cada peça e um overall. No caso de não haver, seu profissionalismo ao passar o som com a banda deve ser o mesmo.

Terminada a parte da bateria, seja educado e polido e não fique tocando na bateria ou praticando rudimentos na caixa enquanto os outros músicos estão passando suas partes. Aguarde na bateria em silêncio ou aguarde fora do palco. Ao ser chamado para passar o som geral da banda não demore, evite ficar ao celular ou ir namorar no carro! Esteja pronto sempre. Passem duas ou no máximo três músicas e evitem a todo custo “ensaiar” na passagem. Se não ensaiou ou não está seguro, melhor não tocar.

No caso de haver duas bandas ou mais dividindo a mesma bateria, desmonte suas coisas sem demora, mas com atenção. Se for o caso, você pode combinar com o outro baterista de dividirem algumas peças como pedestais de prato, de caixa ou mesmo a totalidade das peças, o que pode ser um ponto positivo tanto no relacionamento profissional como certamente vai auxiliar na troca de bandas.

Algumas dicas que podem ser úteis para sua passagem de som:

Não sou um baterista que carrega seu kit de microfones, pois 90% ou mais dos locais que eu toco já contam com sistema de amplificação completo. Mas se você quiser pode obter um e levar caso precise. Muitos músicos simplesmente odeiam a hora de ir passar o som (e já toquei em banda onde um integrante não podia ficar na passagem ou chegou atrasado em outra porque tinha que jogar basquete!) pois na realidade é mais um deslocamento até o local do show, o que conta com gasto de tempo, paciência e combustível. Nem sempre moramos perto do local do show ou contamos com as facilidades de roadies/técnicos que façam isto por nós, então não procure evitar: passar o som é uma das obrigações do dia a dia do músico profissional, o que você deve fazer é aproveitar o momento para aprender mais e procurar deixar o som da melhor forma possível, sem stress. Eu mesmo por diversas vezes já encarei passagem de som de 3 horas de duração e o show e si era de 1h15 e outras amarguras na hora da passagem de som que poderiam facilmente preencher páginas!

Hoje em dia, com mesas digitais que permitem memorizar a equalização de várias bandas (vários cenários ou cenas diferentes), contamos com mais um aliado, mas a presença humana ainda é e será sempre indispensável. Portanto tenha sempre seu equipamento em dia, organize seu tempo e dedique uma parcela do dia do show apenas para preparar o som na passagem. Certamente vai valer a pena na hora de atacar pra valer!!!

Joel Jr é baterista e percussionista em Curitiba. Toca atualmente com sua banda ParanoiKa (que prepara seu primeiro trabalho em CD), além de acompanhar outras bandas e artistas locais nos mais variados estilos (com mais de 100 shows por ano), incluindo o Coral Champagnat da PUC e a Orquestra de Câmara da PUC. É fundador e proprietário da Drum Time Escola de Bateria e Percussão, no cenário desde 1990. Tem o apoio das marcas Roland, Gretsch, Sabian, Vic Firth, Urban Boards e Power Click.

Contatos: www.drumtime.com.br