Desde que comecei a tocar em 1985 ouço vários colegas músicos falando de usar (ou não usar o metrônomo). Como a grande maioria dos iniciantes eu também não possuía um metrônomo adequado nesta época e as gravações em estúdio que fazia com minha banda também não se utilizavam de metrônomo. Naquela época, vale lembrar, não eram comuns programas de gravação ou edição musical que possuíssem metrônomo embutido. O mais comum era aquele metrônomo de pêndulo mesmo. E vamos e venhamos, aquele tipo de metrônomo para nós bateras, serve muito pouco, a não ser toquemos com vassouras ou almofadas, onde assim será possível ouvir o som do click.
O tempo passou e ao decorrer de anos de experiência adquiri minha primeira bateria digital, que claro, tinha um metrônomo ajustável e com o qual eu podia ligar os fones de ouvido. Mesmo treinando muitos exercícios e ritmos com metrônomo, eu ainda ouvia de colegas de bandas que o metrônomo “atrasava” o músico ou “amarrava” o desempenho. Na minha cabeça eu tentava entender o que aquilo queria dizer e não encontrava explicação porque o uso de um aparelho tão preciso não podia “atrasar” o andamento de uma música, afinal ele mantém o andamento sem cair. Li muito a respeito, entrevistas com vários músicos, bateristas e certa vez li uma entrevista com o grande Bill Brufford. Ele que é conhecido por seus deslocamentos de acentuação, frases poliritmicas e o glorioso trabalho com as bandas Yes e King Crimson, contava como faziam para gravar temas como “Heart Of Sunrise”, música que contém vários andamentos diferentes e fórmulas de compasso também. Eu me perguntava como eles teriam feito para gravar aquilo de forma tão precisa, numa época em que metrônomos digitais e programáveis não existiam. Na entrevista ele dizia : “Terminávamos de gravar e íamos até a sala de controle. Lá ouvíamos a música, batendo o tempo na mão ou no pé. Se estivesse soando bem, se o tempo estivesse bom para todos, então assim que ficava”. Uau !!! Então eles não usavam metrônomo !!! Para mim havia sido uma revelação e um alívio. Então não havia necessidade de se dedicar tanto assim estudando com metrônomo. Mero engano ...
Bem, algum tempo mais tarde fui convidado para fazer uma gravação de um CD onde as guias todas haviam sido gravadas sem metrônomo, mas para a parte da bateria, haviam colocado um metrônomo na gravação da guia. Vocês não sabem como foi sofrido. Eu diria até que a gravação foi miraculosa, pois havia momentos em que eu não sabia se seguia o violão, a voz ou o click. O produtor cobrando o tempo de estúdio e eu lá, tendo que escolher o que seguir. Depois desta experiência percebi que em tempos modernos, onde temos à disposição inúmeros equipamentos, sonoridades e facilidades, não usar um metrônomo ou usá-lo, tem que ser uma decisão profissional de alto nível. Por quê? Porque a ‘acuracidade’ em determinados trabalhos é essencial e em outros a mesma se faz de outra forma que não usando um metrônomo. Por exemplo, se você vai gravar um trabalho mais dançante, algo mais eletro, o uso do metrônomo é essencial. Isto não quer dizer que se você for gravar um disco de samba ou de valsas não vai precisar, mas tudo depende do nível dos músicos e cantores que estarão em seu trabalho.
Reparo muitas vezes que músicos e cantores têm um certo “medo” de trabalhar com o metrônomo porque realmente não conseguem tocar no tempo correto. Percebi então que daí é que nasceram os termos de que o metrônomo atrasa ou deixa o trabalho frio. Puro amadorismo!
O guitarrista Pat Metheny tem trabalhos fantásticos gravados, com muito uso de andamentos diferentes, sequencers embutidos, frases complexas que fazem ponte a outras partes da música e tudo isto gravado com o metrônomo! Ok, você pode dizer: Miles Davis não gravava com metrônomo.
Certo, acredito. Mas estamos falando de ... Miles Davis! Perceba quem eram os bateristas que tocavam com ele! Ouça as gravações da maravilhosa Elis Regina e você vai perceber o quão entrosada com a bateria ela era!
Já ouvi alguns CDs maravilhosos onde percebe-se que a música até corre um pouco. Mas isto não tira o brilho da obra, pois os artistas revelam-se no conjunto todo da obra, muitas vezes obras-primas.
Havia na década de 70 um baterista brasileiro muito requisitado em gravações e jingles. O batera era o Picolé. Dizia-se que ele tinha uma noção de tempo muito boa, quase perfeita. Podia-se abaixar o volume da gravação, colocar um metrônomo e voltar o volume e notar-se-ia que o beat era o mesmo! O Picolé gravava muito. Mas por quê será?! ...
Quando uso o metrônomo penso sempre em algum colega percussionista que está tocando um cowbell ou algum instrumento de percussão, ajudando na música. Não penso em alguma máquina que está lá friamente marcando o tempo para mim. O metrônomo é um aliado e não um inimigo.
Muitas bandas e artistas dão suas entrevistas e dizem que em seu último trabalho não usaram metrônomo ou gravaram ao vivo etc. Algumas pessoas ficam até eufóricas e dizem: Viu? Não usam metrônomo!
Como se fosse uma vitória contra a fria e maldosa tecnologia!
Reparem que estes mesmos grandes artistas já passaram muito tempo gravando outros trabalhos e certamente têm em sua carreira uma experiência enorme para poder decidir se usam ou não determinado artifício. Sem contar a experiência de músicos contratados que certamente trabalham muitas horas por dia gravando (e com metrônomo!).
O pessoal que está iniciando, músicos e cantores, precisa sempre perceber que artistas com tradição ou que estão no topo da mídia têm aos seu dispor recursos e experiência suficiente para poder dizer o que preferem ou não experimentar em um estúdio.
Enquanto isto, quem está começando sua carreira tem realmente que se dedicar a estudar e a trabalhar com o metrônomo. Eu garanto que isto trará um senso de andamento muito melhor, uma noção de tempo (colocação das notas e pausas) mais precisa e, depois de muito tempo de estudo, se você achar que pode executar de forma satisfatória seu trabalho sem usar um metrônomo, você vai conseguir.
Hoje em dia existem diversos recursos, como fazer downloads de metrônomos (caso você queira), diversos modelos digitais (e até os de pêndulo tradicionais), metrônomos com pads de prática que realmente monitoram seu desempenho e programas que ajudam você a achar o andamento de uma música. Para os cantores e outros instrumentistas, existem aparelhos não tão caros em que vocês podem gravar suas performances e estudos e analisar sua afinação e andamento.
Claro que nada disso substitui a musicalidade e o talento, mas são excelentes ferramentas para ajudar a crescer e melhorar sua performance. Mas fica difícil nos dias de hoje ainda conversar com alguns colegas e ouvir que eles preferem trabalhar “mais soltos”, que metrônomo segura o feeling, que deixa “duro” ...
Quanta bobagem!
Pessoalmente prefiro deixar bem claro a todos que utilizo, gosto e até prefiro gravar e tocar ao vivo com um metrônomo senão sempre, mas quando necessário, do que levar a culpa por “não manter o andamento” quando, por exemplo, a cantora da banda canta num andamento, dança em outro e a música está em um terceiro !!!
Dicas
- Ouça muito jazz (swing, be bop), bossa nova, salsa tradicional, sambas com bateria e as gravações de rock anos 60 e 70, para entender melhor o que é tocar com fluidez e musicalidade, sem usar metrônomo.
- Jamais dispense estudar com metrônomo. Compre um com saída de fone, assim poderá escutar melhor quando estuda. Se quiser ir mais longe, aconselho o Pad RMP5 da Roland.
Joel Jr é baterista e percussionista há 22 anos. É proprietário da Drum Time Escola de Bateria e Percussão em Curitiba, desde 1990.
Atua nas áreas do pop-rock, instrumental e eletro. É endorsee Vic Firth, Sabian, Michael, Power Click, Urban Boards e Staff Drum.
Contato pelo site www.drumtime.com.br